Será que o uso de medicações para déficit de atenção está exagerado?

Por Ricardo Teixeira*

Uma pesquisa que será divulgada na íntegra no fim do mês na Alemanha por ocasião do próximo Congresso Mundial de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) revela que quase 75% das crianças e adolescentes brasileiros que tomam remédios para déficit de atenção não cumprem os critérios diagnósticos para essa condição clínica. Resultados parciais do estudo foram divulgados nesta semana pelo jornal Folha de São Paulo.

A pesquisa envolveu quase seis mil crianças e adolescentes de 16 Estados do Brasil e Distrito Federal com idades entre4 a18 anos. Os pais e professores das crianças responderam a um questionário baseado nos critérios diagnósticos para o TDAH do DSM IV (manual americano de diagnóstico de transtornos mentais). Apenas 23,7% das 459 crianças que haviam sido diagnosticadas com déficit de atenção realmente tinham o transtorno, segundo os critérios do manual. Das 128 que tomavam remédios para tratá-lo, apenas 27,3% cumpriam os critérios diagnósticos para TDAH.

 A dificuldade diagnóstica do TDAH não é um problema restrito ao Brasil. Já no ano de 1993, uma pesquisa já apontava que mais de 70% das crianças encaminhadas para uma clínica especializada em TDAH nos EUA não apresentavam esse diagnóstico.

O TDAH é uma condição geneticamente herdada que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. O problema acomete entre 6 e 8% das crianças em todo o mundo e ate 60% delas continuarão a apresentar os sintomas durante a adolescência e idade adulta.  A abordagem clínica costuma ser complexa, já que a maioria das pessoas acometidas apresenta outras comorbidades do sistema psíquico, como é o caso de ansiedade, depressão e uso de drogas.

Acredito que o TDAH esteja lado a lado com a depressão como exemplos típicos de um fenômeno de nossa sociedade contemporânea chamado de medicalização da experiência humana. Qualquer experiência de tristeza ou de perda de foco nos estudos ou no trabalho são frequentemente interpretadas de forma errônea por aqueles que têm os sintomas, e mesmo pelos médicos, como se fosse um diagnóstico de depressão ou TDAH. Não estou dizendo que esses diagnósticos não existam. Pelo contrário. São dois dos diagnósticos mais prevalentes na área de saúde mental, que precisam de tratamento, e quando se pensa em saúde pública, certamente tem muito mais indivíduos não diagnosticados do que “super-diagnosticados”.

Não é exagero falar que o TDAH seja hoje o diagnóstico da moda. Já virou até gíria. As pessoas chamam a atenção uma das outras quando há uma falha de atenção com expressões do tipo: hoje você está muito TDA! Hillary Clinton no ano 2000 manifestou oficialmente sua preocupação com excessos no diagnóstico de TDAH. A rede CNN fez uma enquete online no ano 2002 e 76% daqueles que responderam acreditavam que existia um exagero no diagnóstico de TDAH. Recentemente, tive uma conversa com a coordenadora de uma das principais escolas de Brasília que me revelou que quase metade das crianças da escola já recebeu o diagnóstico. Mesmo que seja 20% e não 50%, já seria muito alto.  Durante uma aula de educação física, uma professora dessa escola chamou a atenção de um aluno para seguir sua orientação e a resposta foi desconcertante: “Professora, não peça isso para mim. Sou TDAH”.

Discute-se muito que por trás de um suposto excesso de diagnósticos de TDAH exista uma cultura de medicalização impulsionada pela indústria farmacêutica. No caso das crianças, essa cultura tem outros fortes atores que são os pais e professores. Chega-se a provocar que um rótulo diagnóstico pode ser conveniente para pais e professores que tem filhos e alunos com problemas de comportamento. Já ouvi até mesmo um professor hipotetizar que algumas escolas podem orientar seus professores a solicitar pareceres médicos estrategicamente exagerados, por interesses institucionais competitivos. Mais adolescentes usando medicações levando a maiores índices de aprovação no vestibular do colégio tal? Que assunto complicado! A sociologia tem muito a colaborar.

Muitas idéias e suposições. Entretanto, essa pesquisa traz uma grande contribuição ao sugerir que as crianças e adolescentes brasileiras estão recebendo mais diagnósticos de TDAH do que deveriam. É bom lembrar que a análise não foi feita dentro de colégios, mas foi uma amostra aleatória da comunidade. Aguardo ansioso a publicação dos resultados.

*Artigo publicado no site http://consciencianodiaadia.com | Dr. Ricardo Teixeira é Médico neurologista pela Unicamp e autor do livro Prezado Doc! a improvável conversa entre um médico e um humorista




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