Volta à Ilha não é para qualquer um

Amigos (as),

Dia 14/04, eu e o Vilmar participamos da Volta à Ilha em dupla. Para quem não conhece, a Volta à Ilha é uma prova de revezamento realizada em Florianópolis: são 140 km e, como o nome diz, dá à volta na Ilha de Florianópolis. Acho que é a prova de revezamento mais famosa do Brasil, com participantes do Brasil e exterior. Este ano foram 396 equipes, sendo 30 duplas; as demais equipes foram formadas por 8, 10 ou 12 atletas.

Esta foi minha sétima participação. Em 2007, primeira vez que participei da prova, fiz dupla com meu amigo Lobo, como preparação para Comrades. Nos cinco anos seguintes corremos na categoria participação, onde as regras são flexíveis. Como a organização da prova não prevê a formação de quarteto, montamos no papel uma equipe de oito atletas, (pagamos para oito e corremos somente quatro). De forma que todos corressem mais, pois assim a diversão é, seguramente, maior.

Para a corrida deste ano, eu e o Vilmar elaboramos uma estratégia com distribuição praticamente igual dos quilômetros e trechos difíceis, ficando 68,5 km para o Vilmar e 71,5 para mim. Contratamos uma van com motorista para nossa comodidade e conforto. Assim descansaríamos quando não estivéssemos correndo. Informei o locador que precisaríamos de um motorista que conhecesse o percurso para só focarmos a prova sem outras preocupações.

Chegou o grande dia: sábado, 14 de abril. Haviamos marcado com o motorista para nos pegar no hotel às 4h20. Descemos com nossos mochilas e caixas de gelo e alimentos (frutas, pão etc), encontramos então o Marcelo, nosso motorista. A van era um transporte escolar, o que nos pareceu ser o primeiro sinal de problema. E ainda por cima, o puxador da porta da van estava quebrado (só abria por dentro). Fiquei chateado, pois estávamos pagando caro e eu havia feito varias recomendações ao dono do transporte. Pensei: “Agora é tarde tem que ser esta”. Saímos do hotel às 4h30. Nossa largada era às 5 horas. Ao chegar, encontramos alguns conhecidos (a turma que faz ultra por ter poucas provas acaba se esbarrando sempre, e assim com o tempo vai se adquirindo familiaridade). Tiramos fotos e às 5 horas o Vilmar deu inicio a nossa diversão: dois trechos sem muitas dificuldades num total de 11,9 km que ele tirou de letra, fazendo em 1h03, dois minutos abaixo do programado. Porém, mais um estresse: o motorista se perdeu no segundo trecho e tivemos que fazer uma grande volta, chegando um pouquinho antes do Vilmar.

Iniciei minha corrida bem confortável: tinha 16,3 km pela frente (trechos 3 e 4), sendo que no quarto trecho havia uma novidade: a travessia de barco. Tudo correu como planejado. Mantive o ritmo médio de 5’16” por km (os trechos são tranquilos com algumas subidas). Tanto eu como o Vilmar combinamos de correr levando uma garrafa de água ou isotônico de 500ml, no início incomoda bastante, mas tem momentos que acredito ter sido fundamental esta decisão. Quando cheguei no ponto de pegar o barco estava atrás mais ou menos 20 metros de um grupo de três corredores; pensei – o barco vai encher com estes três e vou ficar esperando um tempão – adivinhei. O barco tinha apenas mais três lugares e eu estava me acostumando com a ideia, quando um dos corredores foi tirar o tênis e a turma do barco impaciente pedia para que eu completasse. Como o outro corredor não se importou, coloquei rapidamente o colete salva vidas e entrei correndo na água e para dentro do barco. Lá, havia mais três corredores de duplas. Depois da travessia, uma praia com areia dura, uma beleza para correr. Terminei meus trechos em 1:25:58, três minutos abaixo do programado, passei o bastão para o Vilmar e fiquei esperando o Marcelo (motorista). Havíamos combinado que após estacionar o carro ele iria até o ponto de troca ao nosso encontro; pois são muitos carros e, com o passar do tempo, aumenta o fluxo de corredores e carros nos pontos de transição, o que torna muito difícil e demorado encontrar alguém que não esteja em um ponto de encontro preestabelecido. Como o motorista não aparecia fui atrás e o encontrei rapidamente ainda na praia.

O Vilmar tinha pela frente os trechos 5 e 6 no total de 10,4 km em terreno variado (asfalto, trilha e praia) considerado de dificuldade moderada, fomos eu e o Marcelo direto para o ponto de troca no posto 7, tive assim tempo de me hidratar e alimentar, quando o Vilmar chegou com 56’, um minuto abaixo do programado, eu estava pronto para tentar manter o ritmo da dupla.

O trecho sete tem 10,4 km de praia, asfalto e trilha. A trilha é no final do trecho e são 2,5 km, com subida e descida muito acentuadas. A subida é praticamente uma escalada, é necessário usar as mãos para segurar nas pedras e na vegetação para subir. Essa parte é tão difícil, que faz a subida do Morro do Sertão (trecho 16) parecer plana. Na descida tive que ir muito devagar para não cair, a trilha é escavada no solo, parece que foi feita pela água das chuvas. Consegui manter o ritmo de 5’20” até a trilha, porém, fiz o trecho de 1km de subida em 17 minutos. Concluí esse trecho em 1h e 14’, ritmo de 7’12”/km, dez minutos acima da previsão, que foi feita sem conhecimento do nível de dificuldade do trecho.

Na sequência, o Vilmar deveria correr mais dois trechos, o 8 e o 9, quilometragem total de 10,5 em praia, trilha e novamente praia. A trilha tinha o mesmo grau de dificuldade da trilha anterior, onde não há como correr, neste trecho o Vilmar chegou a cair, mas não teve nenhuma consequência. Terminou os dois trechos com o tempo total de 1h e 6’ ritmo de 7’08”/km, nove minutos acima do programado.

Nossa programação não contemplou a dificuldade das trilhas dos trechos 7 e 8, percursos novos na corrida, mas a partir do trecho 10 já estava planejado revezar a cada trecho, pois começava uma sucessão de trechos considerados muito difíceis, com dunas, praias com areia fofa ou subidas que pareciam verdadeiras paredes. Somente os trechos 14 e 15 seriam feitos pelo mesmo corredor, isso para que as quilometragens total, minha e do Vilmar, ficassem bem próximas.

O trecho 10 é meu velho conhecido de 2007 a 2012. Só não corri este trecho em 2010. O trecho começa com um pequeno percurso de subida no asfalto, depois tem um trecho de terra em forma de longos degraus com vegetação fechada na lateral e na parte superior fazendo um túnel, ao final vêm as dunas; na sequência as trilhas com areia fofa e para terminar uma estrada de terra que margeia a praia frequentada por muitos surfistas. Mesmo com as dificuldades, é uma maravilha correr esse trecho. Terminei os 8,4 km com um tempo de 51’23” ritmo de 6’07”, acima um minuto do programado. Ao fim desse trecho tínhamos praticamente feito a metade da prova 67,9 km dos quais eu corri 35,1 e o Vilmar 32,8. Nosso tempo total era 6hs e 38min, somente 15 minutos acima do programado, devido à dificuldade dos novos trechos 7 e 8.

Para o trecho 11, de 5,7km, o Vilmar largou tranquilo. Encontrei nossa van e partimos para o próximo posto de transição. Tudo tinha que ser rápido, pois o trecho era pequeno e eu tinha que trocar de roupa e tênis e me alimentar. Quando volto minha atenção para a estrada, vejo uma enorme subida e falo para o motorista que quem ia fazer aquele trecho era eu, portanto, ele havia passado do posto de troca. Fizemos meia volta e começamos a voltar muito lentamente, pois o trânsito estava praticamente parado. Comecei a perguntar para os corredores que passavam ao lado do carro, qual era a distância para o ponto de troca, resposta de: 2,5 a 3 km, como não saiamos do lugar resolvi ir andando até o posto. Depois de caminhar mais de 1 km a van me alcançou e fomos para o posto. Desci correndo e fui até o ponto de troca e nada do Vilmar. Confirmei com a fiscal, e ele já havia passado a mais de 15 minutos, voltei para a van e no caminho encontrei o Rogério da Go Run que me falou que o Vilmar me esperou por uns 10 minutos e depois resolveu fazer o trecho 12, ou seja, fazer dois trechos seguidos. Voltamos para a estrada e encontramos o Vilmar na grande subida do percurso, demos água e isotônico e fomos para o próximo ponto de troca.

Fiquei muito chateado, pois todo nosso planejamento havia se perdido e fiz uma nova distribuição dos trechos restantes para que ficássemos mais ou menos com a mesma quilometragem. Mas com pressa, chateado e irritado, errei na redistribuição; eu deveria ter feito os três próximos trechos 13, 14 e 15 (21,6 km) e depois continuar com a distribuição planejada.

O Vilmar terminou os dois trechos 11 e 12 com 1h e 38’, incluindo o tempo parado. O trecho 11 foi feito 2 minutos abaixo do programado.

Agora, eu ia fazer os trechos 13 e 14, inteiramente na praia com 12,6 km. No primeiro trecho a areia estava boa para correr, somente tendo que desviar das ondas, mas no seguinte, como a maré estava subindo, tive que correr na areia mais fofa. Terminei os trechos com 1h e 15min, ritmo de 6’01”/km. À essa altura, eu estava esgotado, desanimado, aborrecido e comecei a ficar preocupado em não conseguir concluir a prova no tempo limite de 15h e 15minutos.

O Vilmar, sempre muito guerreiro e paciente, iniciou o trecho 15 de 8,8 km como se nada tivesse acontecido. Eu agora tinha que me preparar para o Morro do Sertão. Fui para a van e fiquei orientando o motorista até chegarmos no ponto de troca; só depois comecei a me preparar para correr. O Vilmar fechou o trecho com 54min, ritmo de 6’10”/km.

Havia programado fazer o Morro do Sertão em 1h e 45min, ritmo de 7’/km, porém quando comecei a correr estava muito cansado, corria a um ritmo de de 6’ a 6’30”/km na parte menos difícil do trecho, antes da subida. A garrafinha de isotônico que eu levava na mão estava pesando horrores, toda hora queria me desfazer dela, mas pensava: no morro não tem nada.

No inicio da subida do Morro a organização colocou um ponto de apoio. Tomei água e comecei a subida; fui trotando, depois caminhando. Decidi trotar nas descidas e nos planos e caminhar nas subidas fortes. Acompanhava o ritmo médio pelo Garmin e a situação estava crítica: 8’/km e aumentando. Me senti desmotivado, era constantemente ultrapassado e nunca recebia um incentivo; também nenhum dos corredores sabia que eu estava fazendo dupla, com certeza viam um corredor quebrado que deveria ter iniciado muito forte e agora ia sofrer até concluir.

Ainda não havia terminado todas as subidas e já estava sem isotônico e com o ritmo acima de 8’ quando tive uma grata surpresa: um garoto com uma jarra de água. Enchi minha garrafa, ganhei forças e agradeci muito a iniciativa do menino em ajudar os corredores.

Pouco depois começou a descida, estava com a musculatura toda doída. A descida é bem íngreme e o piso em paralelepípedo é horrível para correr. Quando começou a parte plana voltei a correr entre 6’ e 6’30”. Chegando no outro posto de abastecimento eu estava com o corpo febril, queria tomar um banho e perguntei para o pessoal que distribuía a água se havia alguma torneira por ali, e para minha felicidade havia uma ducha bem do lado. Não perdi tempo, foram um ou dois minutos debaixo da água, com roupa, tênis, tudo…. Me senti renovado e voltei a correr fazendo um ritmo de 5’ a 5’30”/km, agora faltava pouco para terminar o trecho. Concluí com 2hs e 1 min, ritmo de 8’04”. Agora, para mim, só faltava mais um trecho, o último e teria um bom tempo para descansar.

O Vilmar, como havia esperado muito, saiu do ponto de troca com a garrafinha sem água, ele iria fazer os trechos 17 e 18 num total de 15,7 km. Saí rapidamente procurando a van. Este ponto de transição é um verdadeiro caos. Andei por mais de um km até encontrá-la e saímos na correria para alcançar o Vilmar. O encontramos faltando poucos metros da base aérea. Fizemos o suporte com água e isotônico e seguimos para o próximo posto de troca. O motorista me falou que o Vilmar havia passado mal e eu pensei em fazer o trecho 18, para ele descansar e fazer o 19, mas o trânsito na Base Aérea não fluía e quando saímos dela ele já tinha passado pelo ponto de troca.

Quando encontramos o Vilmar demos água e isotônico a ele e seguimos para o último posto de troca. Para variar o motorista se perde novamente e não sabia o que fazer. Eu estava a ponto de explodir, mas me contive e fui orientando o motorista até avistar os corredores que faziam o último trecho. Encontrei com alguns fiscais da prova, que nos direcionaram ao posto de troca.

O motorista me pedia desculpas o tempo todo e eu muito chateado, dizia que ele não tinha culpa, que o verdadeiro culpado era o proprietário do carro – um irresponsável chamado Hélio, que nos encaminhou um motorista que não conhecia Florianópolis, que comprometeu nossa corrida e estragou nossa diversão. Enfim chegamos ao posto de troca. Minha preocupação era, agora, com o tempo limite. Conversando com os outros corredores, fiquei sabendo que a organização havia aumentado em 15 minutos o tempo limite para conclusão da prova. Isso me dava muita folga, mas queria terminar até 20:15, que era o horário limite inicial. O Vilmar chegou com o tempo de 1h e 55’, ritmo de 7’21”; havia passado mal várias vezes durante o percurso e optou por andar alguns pedaços para se recuperar. A situação estava muito complicada para nossa dupla. Estávamos muito desgastados.

Saí para o último trecho fazendo contas, tinha que correr a um ritmo de 5’30”/km para conseguir concluir a prova até às 20:15 h. Então, comecei a perseguir esse objetivo, controlando o ritmo, forçando quando necessário para ficar nessa média/km. Consegui terminar às 20 h 14 min 32 s. Mesmo com todos os problemas e estresses, concluímos a prova em 14:57:19. 17’02” foi o tempo da travessia de barco, que não é considerado no tempo total.

Após cruzar a linha de chegada, fiquei observando a comemoração das equipes com 2, 8, 10 e 12 integrantes. Todos festejando efusivamente e pensei: cada um fez o seu melhor, não se importando se correram 10, 15, 20 ou 70 km. O importante é se superar. No entanto, penso que as medalhas para os corredores que fazem a Volta à Ilha em dupla deveriam ser diferentes, ter um detalhe que as distinguissem das demais. Poderia ser a própria fita.

Valeu a luta! Corremos e buscamos superação pessoal e o valor de nossas conquistas dividimos com os amigos corredores ou não e com nosso treinador.

Quero voltar em 2013 para correr novamente em dupla e fazer um tempo abaixo de 14 horas.
 

 




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