Correr

Correr, de Jean Echenoz, Ed. Alfaguara.

Por Carlyle Vilarinho.

Pessoas que gostam de correr e gostam de ler vão amar este romance onde o personagem central é Emil Zatopek, que não gostava de correr mas que, levado por circunstâncias históricas, acaba se tornando um mito, uma lenda.

Este romance é também uma breve história de uma Tchecoslováquia que de um país livre se vê sucessivamente oprimido por diferentes exércitos, de distintas orientações políticas. Opressão esta que afeta profundamente o destino de seu povo, particularmente a vida de Emil Zatopek.

No princípio, Zatopek não gostava de esporte, tampouco de corridas. Naquele tempo, o dinheiro era curto e ele precisava de cada centavo para garantir a sobrevivência. E ele tinha muita vontade estudar para assim garantir algum futuro melhor.

A bem da verdade, “sua falta de apego pelo esporte foi sempre estimulada pelo seu pai, que lhe transmitiu sua própria antipatia por exercícios físicos, que constituem, a seus olhos, pura perda de tempo e, sobretudo, dinheiro. A corrida a pé, por exemplo, é realmente o suprassumo do gênero: não serve para absolutamente nada como implica um custo suplementar que só faz aumentar ainda mais o orçamento familiar.”

Acontece que a Tchecoslováquia em que ele vive, de repente, é ocupada pelo exército alemão. Numa das tantas manifestações de autoritarismo nazista, todos os estudantes da escola técnica de química e todos os empregados da fábrica de calçados Bata são “convidados” a participar de algum esporte.

A iniciação de Zatopek acontece em uma prova cross-country de 9km, onde ele e outros tantos famigerados compatriotas correm contra um tanto de outros bem preparados alemães. Para surpresa geral, Emil chega em segundo lugar e, sem querer, causa um grande ressentimento junto aos ocupantes alemães.

Como acontece com quase todos os que começam a correr, Zatopek começou a tomar gosto pela coisa. Uma corridinha aqui outra ali, o gosto da vitória e Zatopek começa a bater recordes, um atrás do outro. Primeiro em sua cidade, em Zlin, depois estabelece menos de quinze minutos para os 5km. Sim, 14:25:8 nos 5km, recorde em seu país. Outras marcas nacionais vão se sucedendo, nos 1500m; nos 3000m.

Eclode a II Guerra Mundial, o exército alemão é expulso, chegam os russos. Zatopek é chamado a prestar o serviço militar. O exército gosta de soldados atléticos, principalmente dos vencedores, e o exército oferece ambiente para Zatopek se aprimorar. Emil Zatopek começa a representar seu país no exterior, logo é estrela mundial: Oslo, Berlin, Hanover, Estocolmo, Paris… É uma ótima propaganda da força da juventude socialista checa.

Olimpíadas de Londres de 1948: ouro nos 10.000m; prata nos 5.000m. Vem a Olimpíada de Helsinque, Finlândia, 1952, Emil Zatopek ganha tudo: medalha de ouro nos 5.000, nos 10.000 e recorde na maratona. Impressiona o mundo. É recebido em Praga como herói nacional.

A Tchecoslováquia é uma das mais pujantes das repúblicas soviéticas, Emil Zatopek o próprio símbolo da superioridade soviética nos esportes. No ano seguinte, 1953, Zatopek vem ao Brasil para correr a São Silvestre. Vence tranquilamente e se apaixona pelo país. Talvez seja este o mais bonito capítulo do livro, a passagem de Zatopek pela São Silvestre de 1953 e sua não presença na corrida de 1954. Os êxitos de Zatopek incomodam a burocracia e os autoritários dirigentes tcheco.

O tempo chega para todos, inclusive para Zatopeck. Quando chegam os anos 60, as vitórias tornam-se mais escassas. A Tchecoslováquia vive uma fase de prosperidade e começa a respirar um ar de certa liberdade. Zatopeck quer se engajar nesta nova fase de seu país, agora não mais como corredor, como cidadão. Mas eis que voltam os russos e com ele o fim de uma Primavera de Praga. Tempos sombrios para um herói.




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