Descomplicando a Dermatite Atópica (D.A)
Descomplicando a Dermatite Atópica (D.A)
Fernanda Aparecida de Ornelas (1)
Marilda Ribeiro Yago (2)
1 – Docente da Universidade Católica de Santos.
2 – Fisioterapeuta pela Universidade Católica de Santos, aluna de pós graduação em Fisiologia do Exercício pela Unifesp.
1. O que é Dermatite Atópica (D.A)?
A Dermatite Atópica (DA) é uma doença inflamatória da pele, de caráter crônico e recidivante, sua característica é pele seca, com lesões de distribuição e morfologia típica que podem sofrer alterações no decorrer de sua evolução, ocorrendo em qualquer idade, em especial nos indivíduos com história pessoal ou familiar de doenças atópicas, como a rinite, a asma e a própria DA, as quais formam a tríade atópica (OTERO et al, 2005).
A tríade atópica pode ser classificada em mista ou pura. A mista manifesta-se por quadro respiratório, enquanto a pura não apresenta doença respiratória associada (PIRES, CESTARI et al, 2005).
Dermatite é o termo utilizado para designar a inflamação das camadas superiores da pele, levando à produção de rubor, bolhas, edema, secreção, crostas, descamações e geralmente, prurido (ARNDT, 1990).
Atopia é o termo que designa alergias manifestadas principalmente no sistema respiratório e na pele (dermatite ou eczema). A tendência para desenvolver atopia é congênita, e vai depender da interação do indivíduo com o ambiente (CASTRO, 2001).
É uma doença muito comum, encontrada mais nas áreas urbanas. Inicia-se geralmente no primeiro ano de vida e pode evoluir para cronicidade, alternando períodos de melhora e piora do quadro clínico. A causa exata desta Dermatite Atópica ainda é desconhecida (AADA, 2005).
2. Quais os sinais e sintomas da Dermatite Atópica?
Na Dermatite Atópica sua base clínica é o prurido e xerose como sintomas e o eczema como sinal (OTERO et al, 2005).
O prurido, que pode ser moderado ou intenso, é um sintoma constante, de sensação desagradável, estando presente em todas as fases da DA. Está relacionado à liberação de mediadores inflamatórios como: histamina, interleucinas, proteases, quininas, prostaglandinas, neuropeptídeos e acetilcolina. Este sintoma é tão importante, que sua ausência torna questionável o diagnóstico de DA. Pode variar de localização, intensidade, ocorrendo geralmente em surtos (BOLOGNA, 2003).
Os atópicos têm um limiar de prurido baixo, o que os leva, diante da intensa
coceira, a sofrerem interferência no sono e nas atividades diurnas. (OLIVEIRA & CESTARI, 2005).
Quase invariavelmente, ocorre a constatação da xerose nos indivíduos atópicos. Embora ainda não exista uma definição exata, esta característica é identificada como uma pele seca, de descamação fina, afetando grande parte da superfície corpórea. A xerose pode durar por toda a vida e modificar-se de acordo com as variações sazonais (OTERO et al, 2005).
Outros fatores podem contribuir para a ocorrência da xerose, como as alterações sudorais e alterações do manto lipídico cutâneo. Comparado a indivíduos normais, alguns estudos demonstraram que em atópicos havia uma diminuição da secreção sebácea. Em estudos histológicos do couro cabeludo de crianças atópicas, verificou-se diminuição do número e tamanho das glândulas sebáceas (SAMPAIO & RIVITTI, 2001).
O eczema também faz parte das manifestações clínicas da DA, referindo-se a presença de vesículas na pele, observadas nas fases iniciais da doença. O eritema é a primeira alteração observada, seguida pelo prurido que induz à coceira, levando ao eczema nas primeiras 24 horas. O aumento da velocidade da substituição epidérmica pela inflamação gera a descamação da pele, aumentada pela xerose típica da pele atópica (OTERO et al, 2005).
As manifestações clínicas da DA possuem características peculiares, compreendendo três fases evolutivas, caracterizadas quanto à morfologia e à localização das lesões: infantil (3 meses aos 2 anos); pré-puberal (2 aos 12 anos); adolescência e adulto (a partir dos 12 anos) (PIRES, CESTARI et al, 2005).
A Dermatite Atópica do Lactente manifesta-se como lesões vesicossecretantes-crostosas, surgindo a partir do terceiro mês de vida. Localizam-se na face predominantemente, especialmente no couro cabeludo e nas regiões dos malares. Podem permanecer localizadas nessas áreas ou estender-se por toda face, pescoço, superfície de extensão dos membros e, em quadros mais graves, generalizar-se. O estado de agitação na criança e a dificuldade de manter o sono são determinados pelo prurido que, frequentemente, é intenso. As lesões nesta fase normalmente são exsudativas, com menor predisposição para liquenificação (espessamento e escoriação da pele). Evoluem por surtos, podendo regredir completamente, apenas melhorar ou persistir com maior ou menor intensidade (BONIFAZI & MENEGHINI, 1989).
A Dermatite Atópica Infantil tanto pode ser uma continuidade da DA do lactente, como surgir meses ou até anos após o desaparecimento deste. O acometimento ocorre, principalmente, nas áreas consideradas marcadores da doença: regiões de dobras, como a antecubital e poplítea. Face, pescoço, punhos, nádegas, face posterior da coxa e dorso das mãos e dos pé são também comumente afetados, sendo que as mãos e pés podem apresentar distrofias ungueais e fissuras dolorosas. Caracteriza-se por dermatite crônica com áreas de liquenificação, escoriações e crostas. Apresenta, na sua evolução, surtos de agudização com eritema, vesiculação e secreção, podendo ocorrer generalização das lesões. O prurido é variável, mas geralmente contínuo e intenso o que leva à coçadura e, consequentemente, às escoriações. (BONIFAZI & MENEGHINI, 1989).
A Dermatite atópica do adolescente e do adulto acomete, preferencialmente, as áreas de flexão como cervical, antecubital e poplítea, ocorrendo também com frequência em punhos, mãos e mamilos. A região da face geralmente é acometida, caracterizando-se por eritema ou palidez, e lesões eczematosas, principalmente nas regiões perioral e periorbital. A tendência das lesões é que sejam mais difusas, eritematosas, descamativas e pouco exsudativas. O prurido é intenso, o que leva a escoriações e liquenificação. A xerose de pele é grande, apresentando-se com descamação fina disseminada e a ocorrência da evolução por surtos, alternado com períodos de melhora e agudização (BONIFAZI & MENEGHINI, 1989).
Passada a infância, pode ocorrer o desaparecimento total das lesões, mas geralmente, a doença tem curso crônico, de longa duração, apresentando períodos de melhora e de piora. É comum após o desaparecimento da dermatite atópica, ocorrer a substituição desta por uma das outras formas de apresentação da atopia. Pode, entretanto, reaparecer na idade adulta com características de pele xerótica e irritada (PITREZ & PITREZ, 1998).
Como se apresenta o diagnóstico e a avaliação da Dermatite Atópica?
Devido ao seu variado espectro clínico, a DA tem diagnóstico realizado por uma anamnese e de um exame clínico minucioso.
Hanifin e Rajka, em 1980, estabeleceram, pela primeira vez, critérios para o diagnóstico da DA, divididos em maiores e menores. De acordo com essa classificação, o paciente deve apresentar três ou mais critérios maiores, além de três ou mais critérios menores. Embora novas propostas diagnósticas tenham sido realizadas, a classificação de Hanifin e Rajka e seus critérios continuam sendo os mais utilizados (PIRES, CESTARI et al, 2005).
Quanto a avaliação da gravidade, um dos índices mais utilizados para fins de pesquisa é o SCORAD.
3. O que é o Scorad?
O SCORing Atopic Dermatitis (Graduando a Dermatite Atópica) é uma das ferramentas clínicas aplicadas para avaliar a severidade da DA da forma mais objetiva possível. É constituído por três critérios que quantificam a extensão da superfície corpórea afetada, a intensidade de seis sinais clínicos e sintomas subjetivos de prurido e perda de sono (Consenso Latino-americano de Dermatite Atópica, 2005).
A extensão da superfície corpórea afetada, adaptada a partir da regra dos nove utilizada nos pacientes queimados, é realizada através da avaliação dos sinais da DA em duas figuras que representam o lado anterior e posterior do corpo humano. Cada segmento do corpo equivale a um percentual estabelecido. Na intensidade dos seis sinais clínicos foram avaliados: eritema, papulação/edema, crostas/exudação, escoriações, liquenificação e xerose na pele não afetada, avaliados em uma escala de 0 a 3. Nos sintomas subjetivos, o paciente avalia o prurido e a insônia com uma escala de 0 a 10, onde 0 é a intensidade mínima e 10 a máxima (PIRES, CESTARI et al, 2005).
4. Quais o fatores desencadeantes da Dermatite Atópica?
Fatores desencadeantes são determinadas substâncias ou condições que podem estimular o aparecimento ou a piora da DA.
Sabe-se que a origem da dermatite atópica envolve interações entre a hereditariedade e o meio ambiente. É necessário compreender que, para prevenir o desenvolvimento da dermatose em pessoas predispostas, necessitamos entender os fatores principais desencadeantes. Identificar e eliminar estes fatores é fundamental para o controle da doença (PIRES, CESTARI et al, 2005).
Os fatores desencadeantes podem ser: alérgicos-irritativos, físicos, agentes infecciosos e fatores emocionais. Alimentos, ácaros, sabões, cosméticos, roupa de lã e banhos prolongados são fatores que podem ser considerados alérgicos-irritantes. Temperaturas extremas, baixa umidade e exercícios físicos que provoquem a sudorese, representam fatores físicos. A piora no quadro da DA também pode ser desencadeada por infecções sistêmicas ou cutâneas, como a causada pelo Staphylococcus aureus ou pela Malassezia sp. Em relação aos fatores emocionais, tanto os positivos como os negativos podem ser desencadeantes, junto com a qualidade das relações sociais e expectativas em relação ao tratamento (PIRES, CESTARI et al, 2005).
5. Quais os cuidados que o paciente deve ter na Dermatite Atópica?
Ainda não existem tratamentos que curem a dermatite atópica, mas há o controle gradual das crises até seu desaparecimento.
1- Combater o ressecamento da pele,
2- Controlar o prurido e
3- Combater a infecção
Estas são medidas básicas para controlar as crises. Devido à perda transdérmica de água aumentada, a pele do atópico tende a xerose e à irritação. Por este motivo longos banhos quentes acentuam o ressecamento da pele, tornando-a mais vulnerável ao aparecimento da dermatite. Com isso, substâncias irritantes do meio ambiente, como poeira, produtos de limpeza, fungos e bactérias, penetram mais facilmente, causando vermelhidão e coceira intensa. Há outros fatores desencadeantes, como o estresse, a maior permanência em ambientes fechados e, em alguns casos, certos tipos de alimentos (PIRES, CESTARI et al, 2005).
Deve-se também ficar atento ao ambiente onde a criança passa o maior tempo. Um lugar arejado, com poucos móveis e cortinas e, se possível, sem tapetes, carpetes e bichos de pelúcia, auxiliam na higiene ambiental (CARVALHO e col, 1996).
Alguns fatores que desencadeiam as doenças atópicas como pó doméstico, pólen e pelos de animais são substâncias difíceis de serem identificadas, o que dificulta a comprovação de sua ação nos pacientes com dermatite atópica. Em relação às alergias alimentares, estudos recentes demonstraram que, aproximadamente, 10% das crianças abaixo de cinco anos poderia se beneficiar com uma dieta de restrição adequada (AADA).
6. Quais as complicações na Dermatite Atópica?
Com a imunidade cutânea diminuída e a possível barreira cutânea defeituosa, vários indivíduos com DA podem desenvolver infecções, estimulando ou complicando a doença (OTERO et al, 2005).
A impetiginização por Staphylococcus aureus é bastante comum. Leva ao aparecimento de pústulas, exsudação e crostas. Outras infecções comuns na DA são as verrugas virais, o molusco contagioso e o herpes simples. Este último pode se disseminar no terreno atópico e levar ao quadro conhecido como erupção variceliforme de Kaposi (PITREZ & PITREZ, 1998).
É descrito também que a prevalência de infecção micótica por Trichophyton rubr é maior em adultos atópicos do que em não atópicos (FREEDBERG, EISEN et al, 2003).
Sendo assim, é essencial o controle da colonização, bem como o tratamento dos processos infecciosos para o melhor controle da Dermatite Atópica.
7. Como se apresenta os fatores psicológicos de uma paciente com Dermatite Atópica?
Um dos desencadeantes mais frequentes na DA é o estresse emocional. A ansiedade, frustração e tristeza podem levar à exacerbação da inflamação da pele e do prurido (AOKI & TAKAOKA, 2005).
São fatores que podem contribuir de forma importante para a piora da DA, levando ao aumento do prurido e a sérios problemas de distúrbios do sono, afetando a criança e os pais. Existe também um alto grau de expectativa em relação ao tratamento, gerando muita ansiedade. É essencial a orientação dos pais sobre a doença e as perspectivas em relação ao tratamento, sendo indicada, em certos casos, a psicoterapia (CARVALHO e col, 1996).
8. Quais os tratamentos clínicos na Dermatite Atópica?
Por se tratar de uma doença crônica, seu tratamento deve ser planejado com perspectiva de longo prazo, pois o objetivo é controle da dermatite através da melhora dos sinais e sintomas e da prevenção das recidivas e das exacerbações (PIRES, CESTARI et al, 2005).
O tratamento será focado em fatores exacerbantes, e dentre eles encontramos as infecções cutâneas que deverão ser tratadas com a introdução de antibioticoterapia sistêmica e, se possível, realizar uma cultura e antibiograma para confirma a eficácia do antibiótico. A utilização de corticóides tópicos é recomendada. Substâncias irritantes de modo geral devem ser evitadas. Para o controle do prurido, anti-histamínicos sistêmicos de primeira geração devem ser ministrados, devido ao seu leve efeito sedativo. Já a pele seca, que é um dos fatores que mais contribuem para a piora da DA, pode ser melhorada com a utilização de emolientes ou hidratantes logo após o banho. Durante o banho deve ser utilizado sabonete neutro de glicerina ou que seja feito a base de óleos naturais. De preferência deve-se usar emolientes por conterem uma maior quantidade de óleo, devendo-se evitar loções ou géis por terem alto poder secativo (CARVALHO e col, 1996).
A fototerapia pode melhorar o quadro em formas resistentes e crônicas, sendo utilizados os raios UVA a UVB. A utilização de imunossupressores em formas graves e resistentes pode ser indicada (SAMPAIO & RIVITTI, 2001).
Indica-se a internação hospitalar com o objetivo de interromper um ciclo de inflamação crônica, podendo ser benéfica quando há possibilidade de fator ambiental suspeito, falta de sono, hostilidade em relação à criança ou abandono de tratamento. Faz-se necessária a orientação e aconselhamento dos pais durante a internação, para que não se repita o ciclo que desencadeou a piora do quadro do atópico (CARVALHO,1996).
Outras formas de tratamento não convencionais vêm sendo utilizadas na busca de uma melhora do quadro clínico do atópico, como a Homeopatia, Medicina Tradicional Chinesa, Acupuntura e Dieta (PIRES, CESTARI et al, 2005).
Referências Bibliográficas
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Comentários
Olá Fátima,
Realmente se tem que aprender a viver com ela, mas há como amenizar bastante os desconfortos.
Grande abraço.
Bom dia,
estou com dificuldades de encontar a referencia OTERO, F. G. e col. Consenso latinoamericano de dermatite atópica. 2ª ed. São Paulo; 2005.
Pode me informar como consegui-la.
Obrigada
boa noite! Tenho uma filha de 5 anos, que desde os 3 coça a vagina desesperadamente, em qualquer lugar. Quando começou, conversei com o pediatra, que orientou colocar roupas grossas para evitar a coceira, disse que é normal nessa idade. A pedagoga da escola disse na idade ela à época (3a.) isso não era normal. Procurei uma terapeuta que disse que quem precisava de terapia era eu, e não minha filha. E que a causa da coceira era meu estresse. Fiz terapia por um ano. Diminuiram as coceiras, mas não pararam. Tenho um filho de 26 anos que não quer nada com nada. Nosso relacionamento sempre foi catastrófico e reparei que as coceiras surgiram quando passamos a brigar mais e na presença da minha filha. Ele passou uns meses morando em outro estado e as coceiras melhoraram, mas não sumiram. Mas a frequencia diminiu consideravelmente. Meu filho voltou para casa e continua não querendo nada com nada. Isso me deixa revoltada. Mas naõ entro em atrito com ele na frente dela. Ocorre que de um mês e meio para cá, a coceira voltou com força total.
continuando…Já levei ao meu ginecologista, fizemos cultura, e acusou um fungo existente na parece vaginal. Normal! Foi medicada com Infectrin e Omcilom pomada, 2 x ao dia, o que venho fazendo desde então. Converso com ela! Mas ela diz que a ‘vagina’ começa a coçar e ela não consegue controlar. Isso só vem ocorrendo, atualmente, na sala de aula. Ela está no jardim 3 e seu rendimento/desenvolvimento vem sendo prejudicado em virtude da tal coceira que ela não consegue controlar. Não sei mais o que fazer. Só choro, choro, choro… Estou descontrolada! Ela faz natação. Será uma alergia ao cloro? Embora nos finais de semana ela não faça, mesmo assim ela coça na segunda-feira. Ou seja, fica três dias longe do cloro mas mesmo assim, coça. Será algum alimento? Chocolate, que ela adora! Será pelo de animais? Tenho gatos em casa. Não sei mais o que fazer! Tenho medo dessa coceira virar um cacoete, e ela vir a ser zombada no colégio pelos amiguinhos. Por favor, me ajudem! Me dêem uma luz! Já dei remédio homeopático tb… Obrigada!

Para mim o conteúdo da matéria foi importantíssima e esclarecedora.Já passei por situação mais difícil do que
agora com relação a esta doença.Sempre leio artigos a respeito porque em todo o tempo buscamos a cura porque é imensamente triste e desesperador presenciar durante anos o sofrimento da minha criança e de outraspoucas que tive contato.O tratamento é caro,demorado e eficiente por algum tempo mas infelizmente a doença nunca vai embora completamente.
Mui grata.
Fátima