Programas ensinam pacientes a contornar riscos da asma

Doença mata seis pessoas por dia no Brasil e tem tratamento inadequado, o que é a principal barreira para contê-la.

Diagnosticada como asmática, a auxiliar de limpeza Iracy Rodrigues de Oliveira (47 anos) vivia em crise. Percorria os prontos-socorros e hospitais de Goiânia (GO), até que chegou ao que considerou o ponto mais grave de sua doença: 28 dias de internação. “Nenhum posto me aceitava, porque não havia o que fazer por mim”, acreditava. Constantemente ela apresentava atestados médicos pedindo licença do serviço. “Meus dias eram sempre iguais, tentando controlar a doença com bombinhas, me apavorando quando sentia que a crise viria, e correndo a um hospital, para acabar internada.”

Aos 16 anos a professora paranaense Silvia de Cássia Teodoro, 44, teve a primeira crise e descobriu-se asmática. A doença trazia cansaço, consumia seu fôlego e não lhe permitia acompanhar o ritmo dos alunos. “Parava para tomar ar até quando cantava”, recorda. As freqüentes mudanças climáticas de Londrina agravavam esse quadro nada positivo. “Eu não sabia como lidar com a doença e me desesperava.”

Iracy e Silvia são vítimas da doença que atinge cerca de 10% da população brasileira, segundo dados do Ministério da Saúde, e leva à internação 350 mil pessoas ao ano. Mas elas aprenderam como se livrar das crises e controlá-las, após encontrarem apoio em seus estados. Amparadas por profissionais de programas de combate à asma, desenvolvidos na rede pública de saúde,  mantêm-se longe dos hospitais e das internações.

“Quando percebo a chegada de uma crise sei como controlá-la”, garante Iracy. Desde que entrou para o programa goiano “Catavento”, desenvolvido pelas secretarias estadual e municipal de Saúde, ela se reeducou. Em vez de correr até o posto médico e desesperar-se, reaprendeu a respirar e conter as crises, munida de bombinha e medicamento corretos. No Paraná, Silvia conheceu outro projeto de referência no País, o “Respira Londrina”, e viu os benefícios de saber lidar com sua doença. Abandonou conceitos antigos e equivocados com relação à asma e participa de um projeto educativo, no qual é avaliada com regularidade. Pouco tempo depois, parou de apresentar atestados médicos no trabalho. “Estava livre e sabia como reagir”, comemora.
Doença mata seis brasileiros por dia

Esses dois casos refletem parte do que a asma representa para o sistema público de saúde. Classificada como uma das doenças que mais levam o paciente à internação, como aponta o Sistema Único de Saúde (SUS), ela também é fatal: mata, diariamente, seis pessoas em todo o Brasil. Além das nossas fronteiras, 180 mil asmáticos morrem no mundo, a cada ano, segundo dados da Iniciativa Global para a Asma (Global Initiative for Asthma – GINA). E os prejuízos avançam pela linha profissional. O baiano Nelito Américo Alves, 66, constantemente era internado com falta de ar. As nebulizações utilizando o inseticida BHC, trabalho que exercia em Salvador, agravavam o quadro. Chegou ao coma em uma das vezes e foi levado a pedir aposentadoria para sobreviver.

Quando encontrou na Bahia um programa que usa a educação para tratar pacientes asmáticos, o Pro-Ar, acabaram todas as complicações trazidas pela doença. Recuperou a saúde e viu-se diante de um paradoxo: fora afastado do serviço por causa da asma, e agora, livre dos sintomas, não poderia suspender a aposentadoria. “Tive um prejuízo grande porque me aposentaram antes do tempo, eu não suportava mais.”

Se fosse tratado adequadamente durante as primeiras crises, Nelito poderia estar trabalhando. Até conhecer o Pro-Ar, ele era atendido por profissionais que não sabiam como lidar com a asma. “Eles não tinham o que fazer comigo, porque tentaram de tudo e nada funcionava.”
Tratamento adequado

A situação é corriqueira. Nos postos, o paciente é atendido por um clínico geral que, na maioria das vezes, só cuida de sua crise. A gravidade só não é maior porque, indiferentes aos números, alguns profissionais usaram o conhecimento para combater a doença. O resultado é que, hoje, há 55 programas que trabalham com a educação do asmático. Treze deles, fundamentados em experiências de sucesso, como as de Iracy, Silvia e Nelito, chamam a atenção por desafiarem as estatísticas, ensinando os pacientes a contornar as crises da doença e deixar as filas dos postos médicos.

Ao saber quanto essas experiências eram positivas o Ministério da Saúde deu seu apoio e implantou o “Programa Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Respiratórias”. O médico pneumologista Alcindo Cerci Neto foi convidado a coordenar um grupo formado por representantes das sociedades de Pneumologia, Alergia, Pediatria, Medicina da Família e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems). Juntos, eles escreverão o livro “Asma e Rinite em Saúde Pública”, que será entregue em novembro, durante o Congresso Brasileiro de Pneumologia, em Fortaleza (CE). Na obra, os profissionais que trabalham com asmáticos e têm obtido sucesso contam como reduziram internações e gastos com o tratamento de pacientes.

Para Alcindo, o diferencial desses programas é que o paciente volta para a casa com o dipropionato de beclometasona, um esteróide tópico com potente ação antiinflamatória que reduz o edema e a hipersecreção causados pela asma. Antes, além de não haver remédio adequado na lista de distribuição do SUS, poucos médicos lidavam com a doença.  Duas portarias do Ministério da Saúde – as de números 1318/2002 e 2084/05 – ajudaram a resolver parte do problema. Agora, basta capacitar os profissionais. “Quando se leva o conhecimento de que a asma pode ser tratada e o medicamento existe para ser distribuído, o médico esbarra na questão de como fazer o tratamento”, explica o pneumologista. Mesmo assim, hoje é muito maior o número de pessoas que tratam a asma corretamente. “Se conseguirmos incorporar essas práticas médicas em mais locais, conseguiremos reduzir custos de tratamento, número de internações e as crises de asma”.

 
Débora Rodrigues
Executiva de Contas – Account Executive
Ketchum Estratégia – Brasil
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